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René Char e um poema

  • Foto do escritor: Patrícia Claudine Hoffmann
    Patrícia Claudine Hoffmann
  • 6 de dez. de 2025
  • 2 min de leitura



René Char (1907-1988) foi um poeta de Isle-sur-la-Sorgue, vilarejo próximo a Avignon, situado no sudeste da França. Ele fez parte do grupo surrealista francês por um curto período (1929-34) junto a nomes como Paul Éluard, André Breton e René Crevel. Lutou na Resistência francesa no Exército Secreto do maquis dos Baixos-Alpes durante a Ocupação Alemã, adquirindo com isso a imagem de uma figura engajada de grande importância no pós-guerra. Ele relata essa sua experiência em uma de suas obras mais famosas, seus Folhetos de Hypnos, dedicada a um dos seus melhores amigos, o escritor Albert Camus. Com grande talento para a amizade, Char foi amigo de filósofos, escritores e sobretudo pintores, como Georges Braque, Salvador Dalí, Alberto Giacometti, Pablo Picasso, Juan Miró e Nicholas de Staël. Os três poemas seguintes passam pelas temáticas do sagrado, do amor e da criação. Trazem uma acepção cíclica do tempo, tendo como base simbólica o elemento do fogo no pré-socrático Heráclito de Efeso, tal como apresentado no primeiro poema. A chama que arde é simultaneamente macrocosmo e microcosmo, movimento e inércia, multiplicidade e unidade. Ela ilumina o mundo para nos levar a enxergar em todas as coisas seu eterno ciclo de morte e renascimento.

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Presença comum

(Tradução de Raphael Luiz de Araújo)


você tem pressa de escrever


como se estivesse em atraso com a vida


se for assim corteje suas fontes


corra


corra para contar


sua parcela de maravilhoso de rebelião de generosidade


de fato você está em atraso com a vida


a vida inexprimível


a única à qual você aceita se unir enfim


que lhe é recusada a cada dia pelos seres e pelas coisas


da qual custosamente obtém alguns fragmentos extenuados


ao cabo de combates impiedosos


fora dela tudo não é mais que agonia submissa fim áspero


se encontrar a morte durante seu labor


receba-a como a nuca suada se alegra com o lenço árido


inclinando-se


se quiser sorrir


ofereça sua submissão


jamais suas armas


você foi criado para momentos pouco comuns


modifique-se desapareça sem pesar


sob o desejo do rigor suave


rua após rua a aniquilação do mundo continua


sem interrupção


sem desvario

disperse a poeira


ninguém desvendará sua união.


(Extraído de CHAR, René. Œuvres complètes. Paris: Gallimard “Collection de la Pléiade”, 1983.)


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©2023 por Patrícia Claudine Hoffmann.

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